Mais leite que café

Sempre que vou tomar um café com leite peço: mais leite que café. Em todos os lugares, em casa, em hotéis ou na casa de um amigo. Mais leite que café.

Nunca soube de onde veio este meu gosto, tomar o café bem branquinho, com apenas um ou dois pingos de café preto.

Saí de casa muito cedo e fui tentar a vida em Porto Alegre, estudar, trabalhar, aprender e dar valor às regalias que só temos em casa, sob as asas protetoras de nossa família. Então convivi pouco com meus pais, aquela convivência de perto, de todos os dias, de café na cama e bolo de fubá quentinho no final de semana. E o tempo que convivi, não lembro muito, ficou lá atrás, na infância.

E o café com leite, mais leite que café, veio de onde? Como aprendi a tomar café assim?

Quando minha querida vó se foi – que saudades dos seus conselhos, que saudade da sua elegância, que saudade da segurança de estar ao seu lado – meu pai e eu saímos para tomar um café. Foi um café em silêncio, um café de perda, um café de dor. Não falamos nada um com o outro, apenas pedimos um café com leite. O meu, mais leite que café e o dele, também. Bingo! Daí que vem a minha mania de tomar café assim. O meu pai, que via só de vez em quando, que há tempo não sentava para conversar ou olhar nos seus olhos, no fundo da sua alma, tomava café igualzinho a mim: mais leite que café.

Na verdade eu tomo café igualzinho a ele, é dele, da minha família que vêm a maioria das coisas que estão enraizadas na minha vida, na minha alma. Com eles aprendi mais leite que café, mais amigos que desafetos, mais alegrias do que lágrimas, mais amor e menos rancor, mais sonhos, muitos sonhos do que a vontade de desistir de tudo. Mais responsabilidade e menos preguiça, mais gostar da vida e menos reclamar dela, mais verdade e menos ilusão, mais transparência, ser autêntica do que se calar e esconder o que pensa. Mais vida, mais tudo.

Com certeza muitas coisas que carrego hoje no coração, muitas das minhas verdades e valores foram colhidos no berço da minha família, coisas que não lembrava de onde vieram, mas agora tenho certeza que vieram de lá, deles, do meu pai, minha mãe e dos meus irmãos, mas principalmente da forma como vivíamos: livres, em uma infância dura, com poucos recursos, mas com muito amor, muita educação e muitos valores. Valores que hoje certamente estão sento plantados dia-a-dia na vida da minha filha, valores que um dia ela vai perceber de onde vieram, quando sentar em uma cafeteria e pedir: mais leite que café, por favor!

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